{"id":28711,"date":"2026-10-18T07:48:47","date_gmt":"2026-10-18T10:48:47","guid":{"rendered":"https:\/\/palpite.net\/index.php\/2026\/10\/18\/volei-feminino-ex-libero-fabi-relembra-elogio-de-eurico-quando-jogava-no-vasco\/"},"modified":"2026-10-18T07:48:47","modified_gmt":"2026-10-18T10:48:47","slug":"volei-feminino-ex-libero-fabi-relembra-elogio-de-eurico-quando-jogava-no-vasco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/palpite.net\/index.php\/2026\/10\/18\/volei-feminino-ex-libero-fabi-relembra-elogio-de-eurico-quando-jogava-no-vasco\/","title":{"rendered":"V\u00f4lei Feminino: Ex-l\u00edbero Fabi relembra elogio de Eurico quando jogava no Vasco"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<p>V\u00f4lei Feminino: Ex-l\u00edbero Fabi relembra elogio de Eurico quando jogava no Vasco<\/p>\n<div><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15062983\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi lembra defesa com p\u00e9, aus\u00eancia da Rio 2016 e derrota mais dura<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p>\u201cVivi muito mais do que imaginei\u201d. Com essa frase, Fabiana Alvim de Oliveira, a Fabi, resume uma trajet\u00f3ria marcada pela sucess\u00e3o de acontecimentos improv\u00e1veis. Ainda crian\u00e7a, se apaixonou pelo v\u00f4lei no condom\u00ednio em que morava, em Iraj\u00e1, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Para jogar, superou a desconfian\u00e7a dos pais e o dom\u00ednio territorial dos meninos, que comandavam a quadra de esportes. Mesmo com 1,66m, brilhou como ponteira e central nas categorias de base do Flamengo. E, quando a baixa estatura amea\u00e7ou encerrar a carreira de atleta, conseguiu se profissionalizar gra\u00e7as ao surgimento de uma nova posi\u00e7\u00e3o.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15063255\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi conta como defesa com o p\u00e9 em Londres 2012 a reconectou com o pai<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, inicialmente, Fabi descartou a ideia de ser l\u00edbero. N\u00e3o via gra\u00e7a em jogar sem pontuar, atacar, bloquear ou sacar. Mas acabou convencida por um t\u00e9cnico da base e mudou de posi\u00e7\u00e3o. A escolha fez com que a carioca constru\u00edsse uma hist\u00f3ria de sucesso, mesmo sem defender um \u00fanico clube de fora do estado do Rio de Janeiro. Conquistou dois ouros em Olimp\u00edadas e, neste s\u00e1bado (17), aos 46 anos, ser\u00e1 oficialmente introduzida ao Hall da Fama do v\u00f4lei.\n<\/p>\n<p>\u2013 A beleza do l\u00edbero est\u00e1 no altru\u00edsmo. \u00c9 uma posi\u00e7\u00e3o que foi feita para servir ao time. O meu olhar para a vida, para o mundo, para as pessoas, quando eu penso na Fabiana mulher\u2026. Metade da minha vida foi vivida por meio desse sentimento de servir. Jogar como l\u00edbero \u00e9 um exerc\u00edcio di\u00e1rio de humildade. Essa posi\u00e7\u00e3o foi criada para ser mais uma, porque voc\u00ea n\u00e3o faz um ponto em um esporte que vive disso. O l\u00edbero, por mais que tenha jogadas lindas, \u00e9 muito mais o cora\u00e7\u00e3o do time, naquele lugar do oper\u00e1rio que passa despercebido \u2013 refletiu Fabi, em entrevista ao \u201cAbre Aspas\u201d, do ge.\n<\/p>\n<p>Entre todos os momentos de gl\u00f3ria como l\u00edbero nas quadras, um ficou guardado na mem\u00f3ria de Fabi: a defesa com o p\u00e9 no jogo entre Brasil e Coreia do Sul, pela fase de grupos das Olimp\u00edadas de Londres, em 2012. O lance repercute at\u00e9 hoje, 14 anos depois, mas, para a ex-jogadora, tem um peso que vai muito al\u00e9m do esporte.\n<\/p>\n<p>\u2013 A defesa com o p\u00e9 conversa com uma menina que s\u00f3 queria jogar bola quando era garota. Meu pai (Jos\u00e9 Maur\u00edlio) falava para a minha m\u00e3e (Vera): \u201cA tua filha est\u00e1 l\u00e1 embaixo\u201d. Aquilo, para ele, era cuidado. Naquele momento, eu era filha da minha m\u00e3e. Meu pai trabalhava como taxista (hoje est\u00e1 aposentado) e aprendeu a colocar o v\u00eddeo da defesa no celular para mostrar aos passageiros. Com aquela bola em Londres, me transformo tamb\u00e9m na filha do meu pai. \u00c9 um lance emblem\u00e1tico, inusitado, mas, no meu cora\u00e7\u00e3o, tem um lugar que justifica tudo \u2013 disse uma emocionada Fabi.\n<\/p>\n<p>Em conversa de quase duas horas, a agora comentarista da Globo repassou v\u00e1rios momentos da vida. Na sele\u00e7\u00e3o, sofreu o baque de ficar fora das Olimp\u00edadas de Atenas e se consagrou com os ouros em Pequim 2008 e Londres 2012. Por clubes, teve a oportunidade de representar o Flamengo, time do cora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m passou por um rival. Com a camisa do Vasco, inclusive, enfrentou o Rubro-Negro nas finais da Superliga de 2000\/2001, diante de um Maracan\u00e3zinho lotado. Na ocasi\u00e3o, mesmo derrotada, Fabi recebeu um elogio curioso de Eurico Miranda, ic\u00f4nico presidente vasca\u00edno.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15063039\"><\/iframe><\/p>\n<p>Rubro-negra, Fabi conta como foi defender o Vasco<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p>\u2013 Era uma s\u00e9rie melhor de 5, e o Flamengo vence por 3 a 1. Vou para o exame antidoping. Quando volto, est\u00e1 o doutor Eurico falando com todo mundo. Chego atrasada, mas querendo participar da conversa final. Entro, ele bota a m\u00e3o no meu ombro e diz: \u201cTalvez voc\u00eas n\u00e3o saibam o que significa um Flamengo x Vasco. Essa aqui sabe\u201d. E ele abra\u00e7ado comigo. \u201cIndependentemente do que aconteceu, espero que entendam o amor por essa camisa, a dimens\u00e3o desse cl\u00e1ssico\u201d. E o tempo inteiro me colocando como s\u00edmbolo. Meu Deus, mal sabia ele que sou Flamengo. Mas foi um dos elogios mais bonitos que pude receber \u2013 contou a bicampe\u00e3 ol\u00edmpica.\n<\/p>\n<p>Ao longo da carreira, Fabi teve a oportunidade de trabalhar com dois dos maiores t\u00e9cnicos da hist\u00f3ria: Bernardinho e Z\u00e9 Roberto Guimar\u00e3es. Al\u00e9m das medalhas ol\u00edmpicas, conquistou outros t\u00edtulos com a sele\u00e7\u00e3o brasileira e se sagrou campe\u00e3 da Superliga Feminina 10 vezes. Para muitos, \u00e9 a melhor l\u00edbero de todos os tempos. A entrada no Hall da Fama, ent\u00e3o, soa como algo natural. Mas n\u00e3o para Fabi.\n<\/p>\n<p>\u2013 Jamais imaginei que pudesse acontecer algo pr\u00f3ximo disso.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15063098\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi lembra jogo em S\u00e3o Janu\u00e1rio e revela se j\u00e1 cantou o \u201cCasaca\u201d<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p><b>Ficha t\u00e9cnica<\/b>\n<\/p>\n<ul class=\"listul\">\n<li>Nome: Fabiana Alvim de Oliveira<\/li>\n<li>Apelido: Fabi<\/li>\n<li>Idade: 46 anos (7 de mar\u00e7o de 1980)<\/li>\n<li>Carreira na quadra: Maca\u00e9, Flamengo, Vasco, Campos e Rio de Janeiro (hoje chamado de Sesc-Flamengo)<\/li>\n<li>Principais conquistas: dois ouros ol\u00edmpicos (Pequim 2008 e Londres 2012); seis t\u00edtulos do Grand Prix; dois ouros na Copa dos Campe\u00f5es da Federa\u00e7\u00e3o Internacional de V\u00f4lei (FIVB); campe\u00e3 pan-americana (Guadalajara 2011); 10 trof\u00e9us da Superliga Feminina; tetracampe\u00e3 do Sul-Americano de Clubes.<\/li>\n<\/ul>\n<p><b>Abre Aspas: Fabi Alvim<\/b>\n<\/p>\n<p><b>ge: Voc\u00ea jogou futebol, basquete. Por que o v\u00f4lei te conquistou?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Foi influ\u00eancia das Olimp\u00edadas de 92, da chegada dessas refer\u00eancias, de \u00eddolos, em zonas que t\u00eam menos oportunidades. Sempre fui uma menina de brincar na rua, de experimentar tudo, e havia duas quadras onde eu morava, em Iraj\u00e1. Impreterivelmente, uma era do futebol, e a outra servia para tudo: bicicleta, patins, o que quisessem. Mas o ouro ol\u00edmpico da sele\u00e7\u00e3o masculina fez a galera jogar v\u00f4lei. Experimentei um pouco de tudo, e, em teoria, o v\u00f4lei me aceitava mais. Se n\u00e3o tivesse vaga no futebol, a quadra de v\u00f4lei estava ali. Eu tinha 12 anos. Era praticamente a \u00fanica menina e precisava de artimanhas e estrat\u00e9gias para jogar. Eu marcava o placar, sempre faltava algu\u00e9m\u2026. N\u00e3o era todo mundo que praticava v\u00f4lei. Normalmente ficava no v\u00f4lei quem era exclu\u00eddo do futebol (risos), tinha uma certa empatia no ambiente. Guardo muitas lembran\u00e7as da febre p\u00f3s-Barcelona, que se refletiu nas zonas perif\u00e9ricas.\n<\/p>\n<p><b>Quando chega aquele momento crucial de decidir uma profiss\u00e3o, como sua fam\u00edlia absorveu a op\u00e7\u00e3o por ser atleta?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Com 12 anos, eu estava no Gr\u00eamio de Vista Alegre e comecei a participar de pequenas competi\u00e7\u00f5es. Fui jogar um campeonato no estacionamento de um shopping de Madureira. Um treinador me viu jogar e convidou tr\u00eas meninas para fazer um teste no Flamengo. S\u00f3 eu passei. E comecei a treinar com o time mirim do clube. Estudava at\u00e9 meio-dia em uma escola p\u00fablica e precisava estar 13h30 na G\u00e1vea, de \u00f4nibus, sozinha. Para essa opera\u00e7\u00e3o acontecer, muita coisa tinha que dar certo. Um pouco dessa \u201cingenuidade\u201d dos meus pais, uma coisa pura deles\u2026 \u00c9 insano pensar que uma menina sa\u00eda da escola para o Flamengo, sozinha, fazendo baldea\u00e7\u00e3o, pegando dois \u00f4nibus, sem informa\u00e7\u00e3o nenhuma. E o que voc\u00ea tem que fazer? Olhar o outro, perguntar, se virar. Convencer os meus pais foi, de certa forma, tranquilo no in\u00edcio. Come\u00e7o no mirim, cres\u00e7o no infantil e vou chegando na fase de pensar no estudo. Sou da primeira gera\u00e7\u00e3o da minha fam\u00edlia que completou o Ensino M\u00e9dio. Meus pais pararam de estudar, ent\u00e3o queriam que meu irm\u00e3o e eu estud\u00e1ssemos. Quando eu completo o segundo grau, fa\u00e7o dois per\u00edodos de faculdade, inclusive. A decis\u00e3o de me dedicar s\u00f3 ao esporte veio depois.\n<\/p>\n<p><b>Como foi conciliar os estudos no col\u00e9gio, a faculdade de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e o v\u00f4lei?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Eu levo as coisas muito bem. Voc\u00ea vai vendo que \u00e9 pequena, escuta as pessoas falarem: \u201cPoxa, a Fabi joga t\u00e3o bem, pena que \u00e9 pequenininha\u201d. E come\u00e7a a entender que talvez o esporte seja uma passagem da sua vida. Estava claro o que as pessoas pensavam, n\u00e3o o que eu pensava. \u00c9 muito louco, porque sempre achei que ia jogar v\u00f4lei. Se voc\u00ea me pedir um motivo para isso, em vez de seguir o caminho dos estudos, acho que \u00e9 o sonho mesmo. Eu sonhava tanto\u2026 Via a Mireya jogar e achava que dava. \u201cTem uma pequenininha ali\u201d. Eram pouqu\u00edssimas parecidas comigo no tamanho\u2026 O que eu ouvia era: \u201cN\u00e3o vai dar para jogar v\u00f4lei profissionalmente\u201d. O Rio n\u00e3o tinha um time profissional. Muitas coisas aconteceram e ajudaram nesse sonho. Eis que, em 1998, a posi\u00e7\u00e3o de l\u00edbero \u00e9 oficializada, no meu \u00faltimo ano de juvenil, e montam um time em Maca\u00e9. Eu recebo um convite, e, a\u00ed, entra em jogo a Fabi argumentativa, que precisava convencer meus pais de que o esporte poderia ser uma profiss\u00e3o. A probabilidade de eu jogar v\u00f4lei profissionalmente era muito pequena. Muitas coisas se encontraram para eu virar profissional.\n<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea ia aos jogos de v\u00f4lei do Brasil? Era uma menina que gostava do esporte e tinha os campe\u00f5es ol\u00edmpicos de 1992 como \u00eddolos?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Eu frequentava muito as arquibancadas. Depois da medalha de ouro, a sele\u00e7\u00e3o joga uma Liga Mundial no Rio de Janeiro, e fui assistir. Tenho hist\u00f3rias \u00f3timas, recorda\u00e7\u00e3o de ficar impressionada com o Maracan\u00e3zinho. E tenho uma recorda\u00e7\u00e3o n\u00e3o muito boa (risos), de f\u00e3. Estava com umas amigas, todas de papel e caneta nas m\u00e3os, para pedir aut\u00f3grafos. O Maracan\u00e3zinho muito diferente, cabia muito mais gente. Ficamos pr\u00f3ximas \u00e0 quadra, e lembro do Giovane, grande \u00edcone, expoente daquela gera\u00e7\u00e3o, talvez o mais badalado. Ele deu aut\u00f3grafos para as minhas amigas e, na minha vez, foi embora. Nossa, eu sa\u00ed magoad\u00edssima, trist\u00edssima (risos). Hoje entendo perfeitamente que n\u00e3o era pessoal, mas na hora d\u00e1 uma desilus\u00e3o. Aquela gera\u00e7\u00e3o \u00e9 primordial para a minha escolha pelo esporte. Tande, Giovane, Marcelo Negr\u00e3o, Maur\u00edcio\u2026 O Flamengo monta um time no masculino que vai disputar a Superliga, em meio a um projeto de trazer \u00eddolos ao Brasil. O Talmo e o Tande v\u00eam para o Flamengo. Eles foram muito respons\u00e1veis por eu quase repetir de ano, porque matava aula para ver os treinos, fiquei amiga deles. Eu adorava, era uma f\u00e3 que frequentava os jogos. E era rata do v\u00f4lei de praia tamb\u00e9m, ficava voluntariamente pegando bola para as duplas. Catei bola para Adriana Behar e Shelda, Jackie e Sandra, treinei com elas. A Shelda era pequenininha. Eu achava que ela era do meu tamanho, mas ela diz que tem um pouco mais. Shelda e Mireya foram minhas refer\u00eancias. Refer\u00eancias por aus\u00eancia de padr\u00e3o, sabe? Alimentavam aquela menina que n\u00e3o se encaixava muito. N\u00e3o eram grandes e viraram estrelas da modalidade que eu mais amava.<\/p>\n<p><b>Essa falta de padr\u00e3o te fez querer mais?<\/b><\/p>\n<p>\u2013 Nenhuma d\u00favida. A gente recebe muitos \u201cn\u00e3os\u201d na vida. \u00c9 humano algu\u00e9m falar: \u201cIsso n\u00e3o d\u00e1\u201d. E voc\u00ea tem o \u00edmpeto de dizer: \u201cVai dar, sim, quer ver?\u201d. \u00c0 medida que voc\u00ea vai ganhando repert\u00f3rio, esses \u201cn\u00e3os\u201d viram combust\u00edvel. Voc\u00ea quer fazer por voc\u00ea, pela paix\u00e3o ao esporte e para provar que d\u00e1. Isso \u00e9 muito humano. \u00c9 preciso ter sabedoria para transformar as respostas negativas em motiva\u00e7\u00e3o. Faz parte da trajet\u00f3ria. Certamente a aus\u00eancia de padr\u00f5es me dava desconforto e, ao mesmo tempo, funcionava como combust\u00edvel.\n<\/p>\n<p><b>De que forma a menina acostumada aos \u201cn\u00e3os\u201d recebeu a oficializa\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de l\u00edbero na mesma \u00e9poca que estava se profissionalizando?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 O primeiro contato com a descoberta \u00e9 engra\u00e7ad\u00edssimo e poderia ter dado muito errado. O v\u00f4lei mudou muito ao longo dos anos, e a cria\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de l\u00edbero \u00e9 uma das altera\u00e7\u00f5es mais impactantes. Num esporte sem empate, que vive de pontos, inventam uma posi\u00e7\u00e3o em que voc\u00ea conseguia fazer, no in\u00edcio, dois fundamentos e ficava de fora da gra\u00e7a do esporte, que eram os pontos. A posi\u00e7\u00e3o entra em teste um ano antes, em um Grand Prix. O l\u00edbero usava a mesma roupa de todo mundo e colocava um colete por cima. Eu nem percebi, nem sabia quem era aquela pessoa de colete. N\u00e3o tinha prestado aten\u00e7\u00e3o. Um belo dia, o t\u00e9cnico do juvenil falou para mim: \u201cFabi, voc\u00ea viu que lan\u00e7aram uma posi\u00e7\u00e3o nova? Tem uma boa chance pintando a\u00ed. N\u00e3o precisa atacar\u201d. Eu perguntei: \u201cO que o l\u00edbero faz?\u201d. Ele respondeu: \u201cVou come\u00e7ar pelo que n\u00e3o faz. Ele n\u00e3o ataca, n\u00e3o saca, n\u00e3o bloqueia e n\u00e3o faz ponto\u201d. P\u00f4, cara, eu dei uma gargalhada. Est\u00e1 de brincadeira! At\u00e9 o goleiro faz gol. O que ele estava me dizendo era um dos maiores absurdos, um insulto. Mas ele estava vendo mais \u00e0 frente.\n<\/p>\n<p>\u2013 Eu fui para casa muito brava, cuspindo marimbondo. E como minha casa era longe, a 1h30 de dist\u00e2ncia, pelo menos, fui refletindo, baixando a poeira. No dia seguinte, volto exercendo o caminho da humildade (risos) e falo para ele me contar mais sobre. At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o tinha nenhuma chance de eu jogar v\u00f4lei profissionalmente, e ali o que ele estava me dizendo era o mais importante: eu tinha uma chance. Foi muito dif\u00edcil no in\u00edcio entender que aquele era o \u00fanico caminho para mim. Foram tantas vari\u00e1veis acontecendo para eu jogar v\u00f4lei, que em dado momento comecei a achar que a posi\u00e7\u00e3o (foi inventada) por pena daquela menina. Eram muitas coincid\u00eancias, era meu \u00faltimo ano de juvenil, eu era a primeira a chegar e a \u00faltima a ir embora, era pequenininha. E foi a posi\u00e7\u00e3o que me deu a chance de sobreviver dentro do esporte.\n<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea come\u00e7a a jogar em Maca\u00e9, em um time com Isabel e M\u00e1rcia Fu. E, no ano seguinte, a Isabel monta uma equipe no Flamengo, como t\u00e9cnica. Em que momento voc\u00ea v\u00ea que o v\u00f4lei est\u00e1 dando certo e vai virar a sua vida?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 A Isabel sempre exerceu uma certa lideran\u00e7a nos bastidores, ia atr\u00e1s de patroc\u00ednio. Era uma mulher empreendedora ainda sendo jogadora profissional. E ela aposta em mim como l\u00edbero titular. A Isabel v\u00ea alguma coisa em mim sem que eu tenha a vaga ideia do que ela estava vendo. Ela me traz para jogar com Virna, Leila e no Flamengo, meu clube do cora\u00e7\u00e3o, onde joguei na base. Olhando para tr\u00e1s, eu falo: \u201cA Isabel era maluca de me colocar de titular com esse elenco e a press\u00e3o que tinha sobre o time\u201d. N\u00e3o era um time para ganhar a Superliga, mas era o Flamengo, que n\u00e3o entra em competi\u00e7\u00e3o para competir, entra para disputar t\u00edtulo. Leila e Virna eram expoentes, fizeram parte daquela sele\u00e7\u00e3o que ganhou a medalha de bronze ol\u00edmpica em 1996. Em 1999\/2000, elas iriam para as Olimp\u00edadas e ganhariam a segunda medalha. O Flamengo tinha muito holofote, foi um baita laborat\u00f3rio para mim. Acho que eu n\u00e3o estava preparada para assumir a titularidade. A minha trajet\u00f3ria \u00e9 mete\u00f3rica, mas de altos e baixos nesses tr\u00eas primeiros anos. Eu jogo essa temporada no Flamengo e, depois, a Isabel monta o time do Vasco. Eu n\u00e3o tenho proposta do Flamengo, e ela me convida para jogar no Vasco, como reserva de novo.\n<\/p>\n<p>\u2013 Eu estava sendo reserva da Sandra, a primeira l\u00edbero do Brasil. No Vasco, eu reencontro a M\u00e1rcia Fu, Ida, Raquel, Fernanda Venturini\u2026 Era um tima\u00e7o. Flamengo e Vasco tiveram muitos problemas financeiros nessa \u00e9poca. No meio do campeonato, eu viro titular. Era muita press\u00e3o, era uma equipe montada para ser campe\u00e3 da Superliga, e as meninas mais velhas me abra\u00e7am: \u201cVamos com a Fabi\u201d. Um m\u00eas e meio depois daquele dia, fui convocada para a sele\u00e7\u00e3o brasileira. Foi uma coisa mete\u00f3rica. Em 1998, surge o l\u00edbero e vou para o time de Maca\u00e9. Naquele momento, se voc\u00ea me falasse que eu iria para a sele\u00e7\u00e3o brasileira, daria a mesma risada que dei para o meu t\u00e9cnico quando ele falou que eu tinha chance de virar l\u00edbero. Foi uma coisa muito louca. Quando eu come\u00e7o a jogar entre as titulares do Vasco, com o respaldo das mais velhas, penso: \u201cIsso pode dar certo, pode dar bom\u201d.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15062987\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi relembra parceria com Isabel, que a tornou titular no Vasco<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p><b>Pelo Vasco, voc\u00ea participa da final da Superliga 2000\/2001, contra o Flamengo, no Maracan\u00e3zinho. Como foi viver um dos jogos mais marcantes da hist\u00f3ria do v\u00f4lei brasileiro?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Aquela final foi emblem\u00e1tica. Os dois times com problemas financeiros, mas conscientes do que o jogo representava. Era uma final de Superliga, com grandes estrelas e torcidas enlouquecidas, rivalidade no talo. Os pormenores s\u00e3o muito legais. Eu lembro dos elencos perfilados, e a Virna, que me conhecia, falando no t\u00fanel: \u201cFabi, \u00e9 o Flamengo, teu time do cora\u00e7\u00e3o\u201d. Eu era jovem. Aquelas brincadeiras s\u00e3o uma maneira de intimidar o outro. Era muito engra\u00e7ado esse bastidor do jogo. Um ano antes, eu estava no Flamengo, todo mundo sabia do meu amor pelo clube. Em casa, tinha uma limita\u00e7\u00e3o dos meus pais. Eu levava roupa do Vasco e s\u00f3 conseguia lavar, n\u00e3o podia secar. O que mais me marcou desse cl\u00e1ssico \u00e9 um daqueles elogios que voc\u00ea n\u00e3o entende em um primeiro momento, mas depois processa.\n<\/p>\n<p>\u2013 Era uma s\u00e9rie melhor de 5, e o Flamengo vence por 3 a 1, \u00e9 campe\u00e3o. Vou para o exame antidoping. Quando eu volto, est\u00e1 o doutor Eurico (Miranda, ex-presidente do Vasco) falando com todo mundo. Era um dos personagens mais emblem\u00e1ticos da hist\u00f3ria do esporte. Chego atrasada por conta do doping, mas querendo participar da conversa final. Quando entro, ele bota a m\u00e3o no meu ombro e fala: \u201cTalvez voc\u00eas n\u00e3o saibam o que significa um Flamengo x Vasco. Essa aqui sabe\u201d. E ele abra\u00e7ado comigo. \u201cIndependentemente do que aconteceu, espero que entendam o amor por essa camisa, a dimens\u00e3o desse cl\u00e1ssico\u201d. E o tempo inteiro me colocando como s\u00edmbolo. Meu Deus, mal sabia ele que sou Flamengo. Que loucura.\n<\/p>\n<p>\u2013 O Eurico via alguma uma coisa em mim, e eu achava que um dia ele perceberia que n\u00e3o sou Vasco. Mais \u00e0 frente, percebi que aquele foi um dos elogios mais bonitos que pude receber. O que ele estava dizendo \u00e9 que pouco importava se eu era Flamengo, Vasco, Madureira ou Bangu. O que ele estava destacando era a minha entrega ao time. Isso diz muito sobre profissionalismo. O Vasco tem uma participa\u00e7\u00e3o muito importante na minha vida, na minha trajet\u00f3ria, mas isso n\u00e3o me faz menos flamenguista. Sou Flamengo para caramba. Eu queria ter aquele t\u00edtulo de Superliga no meu curr\u00edculo. Aquela atmosfera do cl\u00e1ssico me marcou muito. N\u00e3o sei se vamos ter alguma coisa nesse sentido, porque a Superliga tem muita paix\u00e3o, mas estamos falando de algo muito marcante, da hist\u00f3ria acontecendo. Pude desfrutar daquele jogo, daquele bastidor, daquela tens\u00e3o no ar s\u00f3 de imaginar um Vasco x Flamengo.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=13016285\"><\/iframe><\/p>\n<p>Flamengo e Vasco se enfrentaram nas finais da Superliga de 2000\/2001<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p><b>Como foi ser uma rubro-negra atuando pelo Vasco?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Naquela \u00e9poca, n\u00e3o tinha separa\u00e7\u00e3o entre v\u00f4lei e futebol. Depend\u00edamos do desempenho do futebol para receber sal\u00e1rio, entrar uma grana. Ent\u00e3o, se n\u00e3o fosse Flamengo x Vasco no campo, eu torcia para o Vasco por uma quest\u00e3o de necessidade. Ganhei um Carioca pelo Vasco e tenho o maior respeito pelo clube. Consigo misturar essa admira\u00e7\u00e3o como rubro-negra. O Vasco foi muito importante para o Flamengo ser quem \u00e9, alimentar a paix\u00e3o, a rivalidade. Naquele mesmo ano tem uma final do Carioca do futebol, o tricampeonato, gol do Pet, que eu assisto trancada na casa do meu tio em Matias Barbosa (Minas Gerais). N\u00e3o tinha rede social, era outra \u00e9poca. Fiz contagem regressiva para o tri do Flamengo. Era um domingo de folga, e voltei a treinar como se nada tivesse acontecido, porque eu defendia o Vasco no v\u00f4lei. Foi uma \u00e9poca muito importante, que me forjou, por vivenciar essa press\u00e3o, estar junto com estrelas, trabalhar em um ambiente que ajudou a moldar minha personalidade como atleta.\n<\/p>\n<p><b>E na hora em que o Eurico puxava o Casaca (grito t\u00edpico do Vasco)?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Eu tenho uma lembran\u00e7a do Eurico, dentro do Municipal, fumando charuto no \u00faltimo degrau. Isso \u00e9 inimagin\u00e1vel. Ele puxava o Casaca depois do jogo. Eu botava minha m\u00e3o, mas n\u00e3o gritava, n\u00e3o (risos). Cantar, eu n\u00e3o cantava, mas fazia o ritual. Quem estivesse no lugar ia achar que eu estava cantando. mas isso n\u00e3o \u00e9 desrespeito, pelo contr\u00e1rio. Reitero a import\u00e2ncia do Vasco. Eu afirmo que viver aquela experi\u00eancia, aquilo tudo, aquela loucura que \u00e9 esse amor do torcedor por um time\u2026 Se Flamengo e Vasco jogarem peteca, altinha, vai ter gente torcendo.\n<\/p>\n<p><b>Como foi seu primeiro contato com o Bernardinho?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Jogar no Sesc-Flamengo do Bernardinho era um sonho para todo mundo, porque era o melhor time, sempre disputava t\u00edtulos. Quando recebo o convite, demoro um tempo para realizar. Eu lembro que, pelo time de Campos, joguei os playoffs da Superliga contra o Rexona e perdi. No ritual de cumprimento na rede, a Fernanda falou: \u201cO Bernardo vai te ligar\u201d. Um jeito bem Fernanda Venturini. Como assim o Bernardo vai me ligar? Eu n\u00e3o tinha empres\u00e1rio. Fui embora para casa pensando nisso, dividi com o Luizomar (t\u00e9cnico de Campos na \u00e9poca), que disse: \u201cEle vai querer te levar, com certeza. Vai ser dif\u00edcil te segurar\u201d. O Rexona tinha um grande investimento, e eu voltaria para a capital. Joguei 20 anos de v\u00f4lei e nunca sa\u00ed do Estado do Rio. Volto a morar na capital, pr\u00f3ximo da minha fam\u00edlia e em outra condi\u00e7\u00e3o, vislumbrando sele\u00e7\u00e3o, Olimp\u00edadas\u2026 Eu fui cortada dos Jogos de Atenas. Em alguma medida, era um recome\u00e7o. Eu precisava ir para um time com mais chances de brigar por t\u00edtulos.\n<\/p>\n<p>\u2013 Quando eu recebo a liga\u00e7\u00e3o e o convite do Bernardo para jogar, n\u00e3o tinha como n\u00e3o aceitar. Quando eu chego, em 2005, ele j\u00e1 era campe\u00e3o mundial, ol\u00edmpico, de tudo. O encontro foi maravilhoso, porque no treino o Bernardinho n\u00e3o tem aquela intensidade toda. Seria imposs\u00edvel aguentar, trabalhei 13 anos com ele. Em casa, eu falava: \u201cM\u00e3e, d\u00e1 uns gritos de vez em quando para eu n\u00e3o me assustar muito\u201d. Para ir pegando o jeito dele. O dia a dia no treino foi tranquilo, at\u00e9 que chega o primeiro jogo e ele inventa um acento no meu nome. Ele me chamou a vida inteira de \u201cF\u00e1bi\u201d.\n<\/p>\n<p><b>Nas semifinais das Olimp\u00edadas de Atenas, o Brasil abre 24 a 19 no quarto set contra a R\u00fassia, mas leva a virada e perde no tie-break. Qual \u00e9 a sua recorda\u00e7\u00e3o do jogo?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Eu estava em Campos. A gente treinava sempre meia hora depois do fim do jogo do Brasil. Era um sentimento d\u00fabio. Quando o Brasil faz 24 a 19, eu estava naquela condi\u00e7\u00e3o de f\u00e3, mas de quem treinava com aquelas meninas seis meses antes das Olimp\u00edadas. Estava torcendo muito, ao mesmo tempo pensando: \u201cPodia estar ali\u201d. Quando faz 24 a 19, vou me arrumar, pego um iogurte na cozinha, busco a minha roupa e, quando amea\u00e7o desligar a TV, vejo o jogo acontecendo. U\u00e9, j\u00e1 repetindo a partida? Eu paro, olho, e o jogo realmente est\u00e1 rolando. Pego a metade do tie-break e come\u00e7o a assistir meio incr\u00e9dula. O Brasil perde, vou treinar, vamos tentando entender o que aconteceu. E depois vem a consequ\u00eancia dessa virada hist\u00f3rica, in\u00e9dita na era dos sets sem vantagem. Acho que nunca tinha acontecido algo parecido. Foi o recome\u00e7o da sele\u00e7\u00e3o brasileira, de uma reestrutura\u00e7\u00e3o de time pelo Z\u00e9, de trazer jogadoras mais jovens. Virou um time com muita press\u00e3o para ganhar os jogos.\n<\/p>\n<p>\u2013 Toda vez que voc\u00ea tinha uma press\u00e3o no placar para fechar o set, voltava aquela quest\u00e3o vivida em 2004. Ent\u00e3o, Atenas s\u00f3 termina em Pequim. Mesmo sem viver diretamente a virada, muitas de n\u00f3s viveram as consequ\u00eancias dela. Uma atribui\u00e7\u00e3o equivocada ao g\u00eanero e n\u00e3o ao desempenho do time. Em vez de debater tecnicamente o porqu\u00ea de perder para a R\u00fassia, vimos uma discuss\u00e3o generalizada e desmedida sobre o fato de tomarmos a virada por, na hora do vamos ver, as mulheres n\u00e3o conseguirem. O fato de, na \u00e9poca, termos pouco repert\u00f3rio para trazer argumentos fez com que aliment\u00e1ssemos um pouco a discuss\u00e3o, sem algu\u00e9m falar \u201cest\u00e1 errado\u201d. S\u00f3 consegu\u00edamos encerrar o papo quando ganh\u00e1vamos. Isso \u00e9 muito cruel. Depois, com a experi\u00eancia e o entendimento da situa\u00e7\u00e3o, encontramos argumentos para debater com as pessoas. Tinha a ver com escolha errada, mal desempenho aqui e acol\u00e1. Em 2008, colocamos um ponto final nisso tudo.\n<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea falou sobre esse corte de Atenas 2004, que seria sua primeira edi\u00e7\u00e3o de Olimp\u00edadas. Qual foi o tamanho do impacto de ficar fora dos Jogos?<\/b><\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 o primeiro grande baque profissional, n\u00e3o tenho nenhuma d\u00favida. Eu estava em Barueri, n\u00e3o tinha o CT de Saquarema ainda. O Z\u00e9 e o Bernardo costumam protelar o corte. Na cabe\u00e7a deles, est\u00e3o tirando o sonho de um jogador, e isso tamb\u00e9m passa pela nossa cabe\u00e7a em um primeiro momento. Eu me lembro do dia. Est\u00e1vamos nos aproximando da data da viagem, e o Z\u00e9 precisava cortar duas atletas. Uma seria Arlene ou eu, porque s\u00f3 ia uma l\u00edbero. Ela era muito mais experiente, consolidada e estava jogando muito bem. A gente torcia para o telefone n\u00e3o tocar, e uma hora ele toca. N\u00e3o me despedi de ningu\u00e9m, lembro do Z\u00e9 cabisbaixo dando a not\u00edcia. Perguntei a ele o que eu precisava fazer para n\u00e3o sentir aquilo de novo, falei que n\u00e3o ia chorar e chorei para caramba. Ele disse: \u201cSeguir com o que voc\u00ea faz hoje e ir em busca da resposta. \u00c9 voc\u00ea quem tem que responder\u201d.\n<\/p>\n<p>\u2013 Vivi um luto de uma semana e, quando voltei para Campos, o Luizomar falou: \u201cAqui \u00e9 o lugar em que voc\u00ea precisa resolver seus problemas. Treinando, treinando e treinando at\u00e9 ter outra chance\u201d. Claro que \u00e9 humano voc\u00ea atribuir ao outro uma culpa: \u201cFoi ele que n\u00e3o me quis, foi um monte de coisa\u201d. Mas, na minha vida, sempre tive uma coisa: a honestidade comigo mesma. Quando ponho a cabe\u00e7a no travesseiro, sei porque ganhei ou perdi. Sei por que aquilo n\u00e3o deu certo. Em um primeiro momento, achei que a sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse para mim. Mas retorno ao clube, e o sonho de representar o Brasil j\u00e1 aparece de novo. Volto \u00e0 sele\u00e7\u00e3o em 2005 e fico direto depois de superar o corte, esse grande rev\u00e9s que encaro como parte fundamental da minha matura\u00e7\u00e3o como atleta.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15063101\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi afirma que corte de Atenas 2004 foi o primeiro baque na carreira<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p><b>Em Pequim, apesar da pecha de \u201camarelona\u201d, a sele\u00e7\u00e3o brasileira perde s\u00f3 um set. Voc\u00eas chegaram \u00e0s Olimp\u00edadas pensando \u201co ouro \u00e9 nosso\u201d?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Se voc\u00ea perguntar a todo mundo que estava em Pequim qual foi a derrota mais dura, onde encontramos o ponto da virada, foi o Pan de 2007. Tudo foi muito dif\u00edcil. O fato de estar no Maracan\u00e3zinho\u2026. Aquele time de Cuba era para brigar por medalha, mas t\u00ednhamos elenco para ganhar delas. Com a nossa fam\u00edlia ali\u2026 o contexto foi muito complicado. A celebra\u00e7\u00e3o delas foi dif\u00edcil de engolir, sambaram no p\u00f3dio (risos). Eu me lembro de a gente pensando: \u201cVamos olhar para n\u00e3o sentir isso de novo\u201d. Ao mesmo tempo, como n\u00e3o t\u00ednhamos argumento para rebater esse discurso de que amarel\u00e1vamos nas horas decisivas, come\u00e7amos a acreditar nisso de alguma forma. Talvez o Brasil n\u00e3o conseguisse na \u201chora do vamos ver\u201d mesmo. A derrota de 2007 \u00e9 uma ruptura. J\u00e1 me arrepio s\u00f3 de pensar na nossa reapresenta\u00e7\u00e3o em Saquarema, pelos discursos, conversas. Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 mais cascudo e, quando sente essa atmosfera de todo mundo, sabe que vai buscar a medalha.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15063130\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi diz que derrota para Cuba no Pan 2007 foi o ponto de virada para Pequim 2008<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p>\u2013 As coisas v\u00e3o indo, e chega a fase final do Grand Prix (de 2008). Atropelamos todo mundo, e a\u00ed tem uma entrevista maravilhosa, que o Z\u00e9 sempre relembra quando me encontra. Ele estava conversando com a Federa\u00e7\u00e3o Internacional, e o entrevistador era o (Andrea) Zorzi, ex-central da sele\u00e7\u00e3o italiana. Depois do papo, Z\u00e9 vem at\u00e9 mim e diz: \u201cAcabei de dar uma entrevista. O Zorzi me perguntou se o time n\u00e3o tinha chegado ao \u00e1pice antes das Olimp\u00edadas, e mandei ele ver o que o Brasil iria fazer nos Jogos\u201d. Falei: \u201cZ\u00e9, voc\u00ea \u00e9 doido?\u201d. Ele tinha ficado pu** com a pergunta, como se a comiss\u00e3o n\u00e3o estivesse se programando para a sele\u00e7\u00e3o atingir o auge nas Olimp\u00edadas. De fato, a nossa atua\u00e7\u00e3o no Grand Prix foi muito impactante, come\u00e7amos a impressionar todo mundo, refor\u00e7ando a confian\u00e7a que passamos a ter depois da derrota de 2007. Essa passagem \u00e9 muito engra\u00e7ada. Toda vez que eu via o Zorzi nas Olimp\u00edadas, falava: \u201cO melhor est\u00e1 vindo\u201d. Perdemos um set em Pequim. Quando acabou, falei para o Z\u00e9: \u201cProcura o Zorzi para dar entrevista para ele\u201d (risos). S\u00e3o coisas que lembramos com muito carinho.\n<\/p>\n<p><b>Como foi viver os Jogos Ol\u00edmpicos pela primeira vez? Entrar na Vila Ol\u00edmpica, ver tantos atletas ao seu redor, experimentar aquilo.<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 O Z\u00e9 pediu para entrarmos na Vila tr\u00eas dias antes, porque metade do time nunca tinha ido \u00e0s Olimp\u00edadas. H\u00e1 um deslumbramento natural, com credencial, chave do quarto, todas aquelas pessoas ao redor: \u201cCaraca, estou dentro da televis\u00e3o. Estou dentro do lugar onde os meninos de 92 estiveram. Meu Deus, o que \u00e9 isso aqui?\u201d. S\u00e3o uns dois dias de deslumbre. N\u00e3o dava para n\u00e3o deixar de lado essa parte de f\u00e3. Eu andava com m\u00e1quina fotogr\u00e1fica para fazer os registros. N\u00e3o fomos na cerim\u00f4nia de abertura, porque era muito desgastante. Olimp\u00edadas s\u00e3o um lugar em que 10 mil disputam e dois mil saem com medalhas. Os pormenores contam muito para o resultado final. Era comum dizerem: \u201cSe encontrar um atleta com medalha na Vila, tem que aplaudir\u201d. Come\u00e7amos a pensar: \u201cQueremos a nossa hora de receber aplausos\u201d. Depois da final, chegamos na Vila \u00e0s 2h da manh\u00e3 e nos aplaudimos (risos).\n<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea tem alguma recorda\u00e7\u00e3o do ambiente no vesti\u00e1rio antes da final ol\u00edmpica de 2008?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 O vesti\u00e1rio me marcou menos do que o treino da manh\u00e3. Eles tinham muitas d\u00favidas do que fazer para nos motivar, se passavam mensagens da fam\u00edlia ou algo assim. O Z\u00e9 achou que isso poderia mexer demais conosco e n\u00e3o fez nada. Mas o discurso dele\u2026 Voc\u00ea vai jogar a final ol\u00edmpica \u00e0s 20h, o dia n\u00e3o passa, \u00e9 intermin\u00e1vel, ent\u00e3o o treino da manh\u00e3 \u00e9 a \u00fanica maneira de dividir as ansiedades. Em teoria, era para chegar na final Cuba ou It\u00e1lia, mas chegaram as norte-americanas, o que trazia para elas um papel de franco-atiradoras. Quando o Z\u00e9 terminou o treino, ele falou que a gente merecia o ouro, que tinha orgulho do time. No final, disse: \u201cQueria muito que voc\u00eas me ajudassem a recuperar a metade de mim que ficou em Atenas\u201d. O Z\u00e9 n\u00e3o estava se emocionando, estava abrindo o cora\u00e7\u00e3o, sendo verdadeiro. \u201cEu nunca mais fui o Z\u00e9 inteiro\u201d. Cara, aquilo foi pegando cada uma de um jeito. E ele com muito cuidado para n\u00e3o fazer do \u00faltimo treino algo de muita emo\u00e7\u00e3o, fora do tom. Essa conversa me marcou demais. Quatro anos antes, ele tinha me cortado de uma Olimp\u00edada, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para o cara tamb\u00e9m. Foi a maneira que ele conseguiu de humanizar aquele momento de tens\u00e3o, trazendo motiva\u00e7\u00e3o em um sentido humano. Esse discurso foi impactante, bonito, comovente e serviu como combust\u00edvel fundamental para aquele dia intermin\u00e1vel.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15063133\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi cita discurso antes da final ol\u00edmpica: Me ajudem a ser um Z\u00e9 inteiro depois de Atenas<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p><b>Qual foi o primeiro pensamento que veio \u00e0 cabe\u00e7a ao subir ao p\u00f3dio em 2008, 10 anos depois do surgimento da posi\u00e7\u00e3o de l\u00edbero?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Cara, tem uma coisa que me leva sempre ao lugar de f\u00e3. Nas minhas fotos de p\u00f3dio, estou chorando muito. A cerim\u00f4nia passa r\u00e1pido. Voc\u00ea pensa que precisa viver o momento, mas n\u00e3o tem controle. Vem esses pormenores que ningu\u00e9m v\u00ea: \u201ccomo eu cheguei aqui? Muita coisa indicava que eu n\u00e3o chegaria\u201d. Do meu lado, est\u00e1 a Fof\u00e3o, que \u00e9 a primeira pessoa que eu abra\u00e7o quando a \u00faltima bola do jogo vai para fora. Na minha estreia no adulto, fiquei nervosa porque cumprimentaria ela na rede. \u00c9 uma enxurrada de lembran\u00e7as, mem\u00f3rias, pessoas, e passa voando, assim. A \u00fanica chance de ouvir o hino \u00e9 ganhando um ouro ol\u00edmpico. Uma das primeiras lembran\u00e7as foi a quadra de Iraj\u00e1, o futebol, a solid\u00e3o de menina. E a televis\u00e3o de 92, o saque do Marcelo Negr\u00e3o, a narra\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma maluquice, n\u00e3o d\u00e1 para acreditar, n\u00e3o.\n<\/p>\n<p><b>Antes das Olimp\u00edadas de Londres, em 2012, Z\u00e9 Roberto dispensa Fab\u00edola e Mari, em decis\u00f5es muito comentadas na \u00e9poca. Os cortes foram traum\u00e1ticos para o grupo da sele\u00e7\u00e3o?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Todo corte \u00e9 dif\u00edcil, at\u00e9 o esperado. Voc\u00ea vai treinando no dia a dia, percebendo quem tem um desempenho melhor. H\u00e1 tamb\u00e9m quest\u00e3o de conviv\u00eancia, porque o v\u00f4lei \u00e9 um esporte coletivo. N\u00e3o tem como ficar indiferente ao que o outro est\u00e1 sentindo. Vivi altos e baixos depois de Pequim, como atleta, especialmente em 2011. Hoje conseguimos dar nomes para muitas coisas, no passado era uma conversa dif\u00edcil falar sobre vulnerabilidade, chorar era atribu\u00eddo a fraqueza. Tive um ano muito duro, no aspecto pessoal. Fiquei muito perto de ir no meu limite e s\u00f3 tinha a op\u00e7\u00e3o de seguir em frente. O esporte vai al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es de amizade, traz cumplicidade. Muitas vezes, voc\u00ea vai ganhar ao lado de pessoas com quem tem uma rela\u00e7\u00e3o superficial, mas por quem mataria e morreria dentro de quadra. Os cortes foram muito dif\u00edceis. Se n\u00e3o me engano, a dispensa da Fabiola foi anunciada no aeroporto, voltando do Grand Prix. Acho que a sa\u00edda da Mari veio antes, ainda em Saquarema.\n<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea se surpreendeu especificamente com o corte da Mari, que era titular e tinha sido ouro em Pequim?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Acho que foi surpreendente em certa medida, sim. O da Fab\u00edola tamb\u00e9m\u2026 A Dani (Lins) tinha ficado muito tempo de fora de algumas etapas. \u00c9 engra\u00e7ado, porque, durante os jogos, uma hora voc\u00ea tinha certeza de uma coisa, outra hora de outra. O Z\u00e9 n\u00e3o deixava claro o que vinha pela frente, criou esse ambiente para ningu\u00e9m se acomodar. A Mari era campe\u00e3 ol\u00edmpica. Quem acabou indo para essa Olimp\u00edada foi a Tandara, muito jovem. O Z\u00e9 n\u00e3o deixava brecha para a gente pensar, era: \u201cVamos at\u00e9 o fim para ver o que acontecer\u00e1\u201d. Em dado momento, voc\u00ea fica feliz porque vai \u00e0s Olimp\u00edadas, mas n\u00e3o fica indiferente porque (o corte) poderia ter ocorrido com voc\u00ea.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15063148\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi lembra cortes e explica como sele\u00e7\u00e3o foi de quase eliminada a bicampe\u00e3 ol\u00edmpica<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p><b>Em Londres 2012, voc\u00eas tiveram um in\u00edcio inst\u00e1vel, que muda ap\u00f3s a vit\u00f3ria sobre a R\u00fassia nas quartas. Internamente, qual foi o ponto de virada para o Brasil nas Olimp\u00edadas?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 O fundo do po\u00e7o. Chegamos ao limite. \u00c9 muito pouco prov\u00e1vel ter duas chances em uma \u00fanica edi\u00e7\u00e3o de Olimp\u00edadas, e nos questionamos: \u201cO que fizemos de errado?\u201d. O Brasil ser eliminado na primeira fase seria uma trag\u00e9dia. O jogo contra a Coreia foi determinante, porque sab\u00edamos que n\u00e3o dependia mais de n\u00f3s. Ganhamos da China por 3 a 2, e depois veio a S\u00e9rvia, em um duelo que ocorre depois do resultado que poderia ter nos eliminado, entre EUA e Turquia. O fundo do po\u00e7o foi o lugar que visitamos. O Z\u00e9 fez uma reuni\u00e3o e falou para cada uma das que estavam ali, em meio a esses cortes dif\u00edceis, o porqu\u00ea de ele ter nos escolhido. Isso foi bonito. Voc\u00ea escuta coisas legais e verdadeiras. \u00c9 legal ver o l\u00edder de um time, que tinha duas medalhas de ouro ol\u00edmpicas, se mostrando vulner\u00e1vel, falando: \u201cVamos juntos\u201d.\n<\/p>\n<p><b>Como foi o vesti\u00e1rio do primeiro para o segundo set da final contra os Estados Unidos em Londres? Daquela vez, elas eram as favoritas e fizeram 25 a 11 na parcial inicial. Depois, o Brasil conseguiu a virada, vencendo por 3 a 1.<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 De um set para o outro, come\u00e7amos a jogar v\u00f4lei (risos). As americanas eram muito favoritas, foram dominantes no ciclo, tricampe\u00e3s do Grand Prix, e a Hooker estava voando na \u00e9poca. Estavam muito confiantes, e n\u00f3s nos assustamos, respeitamos demais. Elas podiam ganhar, mas n\u00e3o sem n\u00f3s lutarmos. Esse primeiro set durou 25 minutos, nos quais revisitamos tudo o que aconteceu na primeira semana. N\u00e3o t\u00ednhamos chegado ali por acaso. Ressurgimos das cinzas para disputar a final: \u201cAs campe\u00e3s ol\u00edmpicas somos n\u00f3s, muita calma nessa hora\u201d. S\u00f3 quer\u00edamos jogar melhor. As disputas na rede n\u00e3o t\u00eam contato f\u00edsico, mas t\u00eam um contato que \u00e9 t\u00e3o determinante quanto um chega pra l\u00e1: o visual. A mudan\u00e7a \u00e9 t\u00e3o abrupta e impactante que come\u00e7o a ver nos olhos das americanas: \u201cO jogo n\u00e3o vai ser f\u00e1cil\u201d. Dava para n\u00f3s ganharmos.\n<\/p>\n<p>\u2013 No segundo set, assentamos as coisas, oferecemos resist\u00eancia e ganhamos confian\u00e7a. A responsabilidade estava l\u00e1, mas as campe\u00e3s ol\u00edmpicas \u00e9ramos n\u00f3s. Pode perguntar para as meninas se em dado momento voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea a inseguran\u00e7a estampada no rosto das jogadoras do outro. O Brasil tem uma camisa pesada, com hist\u00f3ria, e as pessoas sabem disso. Tenho certeza que, por mais que estiv\u00e9ssemos jogando mal, se a sele\u00e7\u00e3o brasileira chegasse \u00e0 decis\u00e3o, talvez sem esse roteiro de Woody Allen, Almod\u00f3var, todo mundo nos respeitaria em um jogo eliminat\u00f3rio pelo peso da nossa camisa. O que se viu nos tr\u00eas \u00faltimos sets foi uma confian\u00e7a inabal\u00e1vel de um time que n\u00e3o deu chances. Algumas das americanas viveram a derrota na decis\u00e3o de 2008 e sentiram o impacto. Seis de n\u00f3s tamb\u00e9m est\u00e1vamos em Pequim, assim como o Z\u00e9.\n<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea se aposenta da sele\u00e7\u00e3o brasileira em 2014, a dois anos da primeira e \u00fanica edi\u00e7\u00e3o dos Jogos Ol\u00edmpicos na sua cidade. O que te fez parar no meio do ciclo?<\/b><\/p>\n<p>\u2013 O atleta vai compreendendo o fim dos ciclos. Eu me lembro perfeitamente quando come\u00e7a esse clique. Foi em 2012. As Olimp\u00edadas foram t\u00e3o duras, que, quando acabou, senti al\u00edvio. Consegui, entreguei, me doei para esse time. Eu j\u00e1 tinha na minha cabe\u00e7a que alguma coisa n\u00e3o estava legal, pessoalmente falando. Experimentava uma alegria e ao mesmo tempo uma tristeza. Eu vivi 2013. Aproveitei muito aquele ano. E tinha uma menininha, a Camila Brait, cada vez mais me dando trabalho. A competi\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s foi muito legal em diversos aspectos, sobretudo em como uma estimulava a outra. A cada ano, ela evolu\u00eda e me empurrava para cima, e eu tinha que fazer cada vez mais for\u00e7a. Em 2013, eu j\u00e1 estava com uma sensa\u00e7\u00e3o de dever cumprido. Foi como se tivesse feito uma an\u00e1lise de tudo que aconteceu na minha vida, coisas boas, ruins. E a conclus\u00e3o que chego \u00e9 que vivi muito mais coisas do que imaginei viver. Fui muito al\u00e9m. Para disputar uma Olimp\u00edada em casa, n\u00e3o tem atalho: ou voc\u00ea est\u00e1 100% ali, ou as coisas n\u00e3o v\u00e3o dar certo. Eu estava mentalmente cansada de tudo e pensava que, talvez, meu ciclo tivesse se encerrado na sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15063198\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi explica por que se aposentou da sele\u00e7\u00e3o no meio do ciclo at\u00e9 a Rio 2016<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p><b>O Z\u00e9 Roberto tentou te convencer a permanecer na equipe nacional?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Quando vou a Saquarema, n\u00e3o quero conversar, vou para comunicar. Estava decidida (a deixar a sele\u00e7\u00e3o). N\u00e3o tinha absolutamente nenhuma pessoa que me fizesse voltar atr\u00e1s. Acho at\u00e9 que o Z\u00e9 imaginou que eu pudesse reconsiderar. Tenho a recorda\u00e7\u00e3o do caminho que fiz para ir e a sensa\u00e7\u00e3o de voltar para casa. Volto e vou comer em uma churrascaria. Eu estava muito tranquila. Tivemos, eu e Z\u00e9, uma conversa muito bonita, ficamos mais de uma hora. Foi a primeira vez que ele abriu o cora\u00e7\u00e3o para mim sobre tudo. Falou coisas que nunca tinha falado para mim, de agradecimento, de reconhecimento. O treinamento na sele\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o exigente, que \u00e0s vezes criamos uma capa dura e esquecemos que estamos lidando com gente. O Z\u00e9 disse depois que achava que eu ia repensar a aposentadoria da sele\u00e7\u00e3o. Quando vi o desempenho da Camila Brait no Mundial de 2012, j\u00e1 me sentia em paz. Ela jogou muito, e aquilo me deu conforto. J\u00e1 vivi tudo, est\u00e1 tudo bem, a sele\u00e7\u00e3o vai continuar. Eu me peguei assistindo \u00e0quele Mundial tranquila. Amo os anos que fiquei na sele\u00e7\u00e3o, tudo que vivi l\u00e1 e saber que as coisas seguiram. N\u00e3o adianta ter conhecimento, viv\u00eancia e n\u00e3o poder dividir com as pessoas.\n<\/p>\n<p><b>Em nenhum momento voc\u00ea se pegou pensando \u201ce se eu tivesse jogado nas Olimp\u00edadas de 2016\u201d?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Sabe que n\u00e3o? Todo mundo que toma uma decis\u00e3o na vida tem medo de se arrepender. Mas n\u00e3o me arrependi. A Brait me deixou tranquila, depois veio a L\u00e9ia. Se eu falar que nunca mais senti falta, \u00e9 mentira. Entrar no Maracan\u00e3zinho, ver o gin\u00e1sio lotado\u2026 Mas, para chegar ali, tem que treinar. Passei a ter outros objetivos, mudei o foco, comecei a pensar em construir a minha fam\u00edlia. Se voc\u00ea me perguntar do que eu sinto falta, \u00e9 do vesti\u00e1rio. Cara, me desprender daquele ambiente ali foi muito mais dif\u00edcil do que imaginei. Sinto falta de ouvir o hino, jogar uma Olimp\u00edada. A saudade de jogar \u00e9 para sempre. Mas o que mais me doeu foi a saudade do vesti\u00e1rio. Ali \u00e9 um lugar sagrado para os atletas. Acontece de tudo. \u00c9 um atleta que poucas vezes o p\u00fablico vai ver. Nervoso, ansioso, feliz, triste, com d\u00favida, ouvindo m\u00fasica. Acho que \u00e9 um ambiente incr\u00edvel. Eu adorava falar alguma coisa, buscar uma solu\u00e7\u00e3o. A quadra, a bola, a quest\u00e3o f\u00edsica e mental s\u00e3o primordiais, mas tem um mist\u00e9rio no vesti\u00e1rio que ajuda a contar essa hist\u00f3ria. Como aquele ambiente me faz falta\u2026\n<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea tinha algum ritual?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Eu tinha muitos rituais. Atleta vive de ritual, eu acho (risos). Alguns denominam supersti\u00e7\u00e3o. Eu adorava o pipi da sorte, a ordem de bater na m\u00e3o das atletas, a ordem de falar, o esparadrapo que tinha que estar ali por algum motivo, muita coisa. Em dia de jogo, eu detestava sair de casa.\n<\/p>\n<p><b>Qual \u00e9 a sua lembran\u00e7a mais marcante de vesti\u00e1rio?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Eu gosto de lembrar da gente sentada em uma roda na primeira final ol\u00edmpica. \u00c9 muito emblem\u00e1tico aquele clima de tens\u00e3o misturada com confian\u00e7a. Em 2008, a gente usava fone. Em 2012, tem um avan\u00e7o para a caixinha de som. E eu era sempre pulada na hora de escolher a m\u00fasica, porque, segundo elas, meu gosto era duvidoso. Gosto de MPB, uma coisa n\u00e3o muito animada. Eu achava o m\u00e1ximo. Acompanhei essa mudan\u00e7a de gera\u00e7\u00e3o de vesti\u00e1rio. Convivi com um grupo que fumava cigarro, algo comum na \u00e9poca. Vi isso se dissipando, de cada uma na sua m\u00fasica para aquele vesti\u00e1rio do som mais alto, da maquiagem. H\u00e1 v\u00e1rias mudan\u00e7as sutis. O vesti\u00e1rio \u00e9 um lugar po\u00e9tico para mim, o ritual de prender o cabelo, a coisa do pipi da sorte, que \u00e9 maravilhoso, quem faz xixi por \u00faltimo. Talvez as pessoas nem entendam. Como assim? O atleta tem essa cabe\u00e7a meio doidinha, mas no final d\u00e1 certo (risos).\n<\/p>\n<p><b>Qual \u00e9 o lugar que voc\u00ea ocupa na hist\u00f3ria do v\u00f4lei?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o fa\u00e7o ideia. N\u00e3o sei, bicho. O l\u00edbero nunca fez ponto. O pessoal brinca que eu deponho contra. A beleza do l\u00edbero est\u00e1 no altru\u00edsmo. O l\u00edbero \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o que foi feita para servir ao time. O meu olhar para a vida, para o mundo, para as pessoas, quando eu penso na Fabiana mulher\u2026. Metade da minha vida foi vivida por meio desse sentimento de servir, dessa viv\u00eancia do esporte. Jogar como l\u00edbero foi uma das experi\u00eancias mais impactantes da minha vida. \u00c9 um exerc\u00edcio di\u00e1rio de humildade. Essa posi\u00e7\u00e3o foi criada para ser mais uma, porque voc\u00ea n\u00e3o faz um ponto em um esporte que vive disso. As pessoas v\u00e3o falar: \u201cViu que a Sheilla salvou tantos match points?\u201d. O l\u00edbero, por mais que tenha jogadas lindas, \u00e9 muito mais o cora\u00e7\u00e3o do time, naquele lugar do oper\u00e1rio que passa despercebido.\n<\/p>\n<p><b>Como recebeu a not\u00edcia de entrada no Hall da Fama?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Achei que fosse brincadeira. \u00c9 muito comum que voc\u00ea seja lembrada e ganhe daqui a cinco ou seis edi\u00e7\u00f5es. \u00c9 s\u00f3 voc\u00ea olhar para a hist\u00f3ria que estou contando aqui. Estava de f\u00e9rias, o cara me liga e pergunta se eu poderia dar um testemunho sobre a posi\u00e7\u00e3o de l\u00edbero. Claro, l\u00f3gico. Quando ele vem com papo de Hall da Fama, s\u00f3 penso: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 brincando\u201d. \u00c9 muito louco quando eu olho para tr\u00e1s. Se algu\u00e9m dissesse: \u201cFabi, voc\u00ea vai ganhar duas medalhas de ouro ol\u00edmpicas, vai conhecer seus \u00eddolos, viajar e no fim das contas vai terminar em um grupo seleto de atletas hist\u00f3ricos\u201d. Voc\u00ea est\u00e1 de brincadeira comigo (risos). Jamais imaginei que pudesse acontecer algo pr\u00f3ximo disso.\n<\/p>\n<p><b>Voc\u00ea falou da vontade de construir uma fam\u00edlia ao deixar a sele\u00e7\u00e3o brasileira. Em 2019, nasce Maria Luiza, sua filha. Fale um pouco sobre esse seu lado m\u00e3e.<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Sempre pensei em ser m\u00e3e. Desde garota, era aquela que parava para brincar com as crian\u00e7as. Quando fui amadurecendo, crescendo, entendendo minha orienta\u00e7\u00e3o sexual, percebi os caminhos. \u201cPoxa, ser\u00e1 que vou ser m\u00e3e? Como vou fazer isso acontecer?\u201d. Vivo a experi\u00eancia do esporte, a medicina evolui. Era um sonho que vinha e se dissipava, na matura\u00e7\u00e3o enquanto mulher gay. Demorei para caramba para falar: \u201cSou gay, gosto de mulheres\u201d. Demorei muito para falar isso com tranquilidade. Tive minha primeira experi\u00eancia com 17 ou 18 anos e achei que aquilo era o maior absurdo da vida, comecei a me contestar. Minha constru\u00e7\u00e3o enquanto mulher gay tem um per\u00edodo de matura\u00e7\u00e3o das minhas convic\u00e7\u00f5es. Conhe\u00e7o a minha esposa, com quem estou at\u00e9 hoje, vamos nos consolidando como casal e come\u00e7amos a pensar em filho. Em um primeiro momento, eu tinha vontade de gerar. Pela falta de conhecimento, de n\u00e3o saber das possiblidades\u2026 Falar em ter filho enquanto atleta 10 anos atr\u00e1s n\u00e3o era uma coisa simples, tinha que parar de jogar, de ter um sal\u00e1rio. Era uma programa\u00e7\u00e3o minuciosa para que isso acontecesse. Vimos algumas gravidezes sem planejamento, e estava tudo bem. No meu caso, tinha que ser planejada, o que envolvia tamb\u00e9m a quest\u00e3o do doping, porque alguns medicamentos podiam cair no teste. Ent\u00e3o posso ser m\u00e3e sem gerar um filho? Voc\u00ea vai come\u00e7ando a perceber outras possibilidades.\n<\/p>\n<p>\u2013 Saio da sele\u00e7\u00e3o em 2014, quatro anos depois paro de jogar, e tudo vai acontecendo, com aquele sonho de ser m\u00e3e. Em 2017, come\u00e7amos a pensar sobre isso. A Julia (esposa) n\u00e3o engravidou de primeira, n\u00e3o deu certo, e foi um momento muito dif\u00edcil. Nessa bateria de exames, ela descobriu um tumor na tireoide e operou enquanto eu estava jogando um Mundial de Clubes no Jap\u00e3o. Aquilo foi duro: \u201cEst\u00e1 na hora de eu pensar em parar de jogar\u201d. Queria estar perto da minha fam\u00edlia nessa constru\u00e7\u00e3o de ter um filho. Na segunda tentativa, vem a calhar de eu estar parando de jogar, e a gente descobre a gravidez. T\u00ednhamos nossos temores enquanto fam\u00edlia, sobre como criar um filho neste mundo e na composi\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia homoafetiva. Vivi coisas malucas, improv\u00e1veis, inesquec\u00edveis, mas nunca algo parecido com o que ocorreu no dia 2 de julho, \u00e0s 7h59 da manh\u00e3. Voc\u00ea se torna m\u00e3e naquele momento, mas tamb\u00e9m tem um olhar para a sua companheira que \u00e9 uma das coisas mais incr\u00edveis. Estamos juntas h\u00e1 13 anos. Tenho um amor antes e depois da Maria. O nascimento da minha filha foi uma das viv\u00eancias mais incr\u00edveis, um dos momentos de maior gratid\u00e3o. Foi um p\u00f3dio em uma Olimp\u00edada em que eu n\u00e3o era favorita e sa\u00ed me sentindo a pessoa mais importante. Eu me senti preenchida. Depois, vem o desafio maior, que \u00e9 criar um ser humano. 2 de julho \u00e9 o dia mais celebrado internamente, eu comigo mesma. Com os medos, as d\u00favidas, as inseguran\u00e7as. Tenho a data de anivers\u00e1rio e a hora em que ela nasceu tatuadas.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15063232\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi se diz realizada com o sonho de ser m\u00e3e: \u201cUma das viv\u00eancias mais incr\u00edveis\u201d<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p><b>Como o esporte te recebeu depois que voc\u00ea resolveu falar sobre sua orienta\u00e7\u00e3o sexual?<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Fui muito acolhida. O esporte \u00e9 excludente, porque \u00e9 um lugar para alguns, pouco convidativo para pessoas fora do padr\u00e3o. Mas, no ambiente profissional, at\u00e9 uns 10 anos atr\u00e1s, eu falava que nunca tinha sofrido preconceito. Acho at\u00e9 que \u00e9 uma inverdade, eu n\u00e3o estava certa. Devo ter sofrido, mas nunca percebi. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds homof\u00f3bico, conservador, racista. Meu olhar n\u00e3o estava t\u00e3o preparado naquele momento. No dia em que a minha orienta\u00e7\u00e3o sexual deixou de ser um desconforto e passou a ser morada, nada do que fosse feito ia passar batido. Eu estava muito segura para falar, questionar. Sempre fui uma pessoa muito firme. Muita gente diz que eu demorei a me abrir. Demorei. As pessoas tamb\u00e9m demoraram para perguntar, tinham medo. A sociedade nunca esteve preparada para falar sobre certos assuntos.\n<\/p>\n<p>\u2013 Entendo quando um atleta n\u00e3o quer falar sobre temas espinhosos, se posicionar politicamente, comentar orienta\u00e7\u00e3o sexual. H\u00e1 \u00f4nus e b\u00f4nus, n\u00e3o \u00e9 simples. A literatura me salvou nesse ponto. N\u00e3o consigo falar com voc\u00ea sem antes ser quem sou: uma mulher gay, jogadora de v\u00f4lei, m\u00e3e da Maria e um monte de outras coisas. A partir do momento em que me empoderei disso e percebi que n\u00e3o tinha como separar as coisas, foi s\u00f3 algu\u00e9m me perguntar. No dia que algu\u00e9m falou, eu falei. Vim de uma gera\u00e7\u00e3o na qual voc\u00ea escutava sobre ser gay ao p\u00e9 do ouvido. N\u00e3o tinham muitas pessoas que te encorajavam a sair do arm\u00e1rio. O que imagino de mundo ideal \u00e9 que voc\u00ea consiga estimular outras pessoas a serem elas. \u00c9 muito libertador ser quem voc\u00ea \u00e9.\n<\/p>\n<p><center><\/p>\n<p><iframe class=\"embed-responsive-item\" allowfullscreen=\"\" src=\"https:\/\/s.videos.globo.com\/p3\/amp\/index.html?videosids=15063246\"><\/iframe><\/p>\n<p>Fabi explica a decis\u00e3o de falar abertamente sobre sexualidade<\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p><b>Diga alguma coisa que n\u00e3o sabemos sobre voc\u00ea.<\/b>\n<\/p>\n<p>\u2013 Muitas crian\u00e7as que eu encontro falam: \u201cE aquela bola com o p\u00e9?\u201d. As pessoas olham uma jogada como algo imposs\u00edvel, marcante. Adoro lembrar desse momento, por mais que seja narc\u00edsico, como algo que me teletransporta para a minha inf\u00e2ncia. Aquela bola com o p\u00e9 (choro)\u2026 conversa com uma menina que s\u00f3 queria jogar bola quando era garota. Meu pai falava para a minha m\u00e3e: \u201cA tua filha est\u00e1 l\u00e1 embaixo\u201d. Aquilo, para ele, era cuidado, naquele momento eu era filha da minha m\u00e3e. Aquela bola com o p\u00e9 me leva para Iraj\u00e1, para aquele dilema. Eu s\u00f3 queria brincar de bola com os meninos, eu jamais ali estava pensando em alguma coisa diferente disso. Queria brincar, me divertir, viver a inf\u00e2ncia. Essa jogada me leva a um lugar da solid\u00e3o: \u201cN\u00e3o tem nenhuma menina aqui, n\u00e3o posso nem justificar para a minha m\u00e3e\u201d. Ao mesmo tempo, criei bons argumentos. Como eu conven\u00e7o a minha m\u00e3e a deixar aquilo acontecer? \u201cM\u00e3e, no dia que voc\u00ea abrir a janela do quarto e eu n\u00e3o estiver brincando com os meninos, a\u00ed voc\u00ea pode ficar preocupada\u201d. Minha m\u00e3e olhou para mim e pensou: \u201cO que essa garota est\u00e1 falando?\u201d. No fim das contas, eu estava certa, mesmo com 12 anos.\n<\/p>\n<p>\u2013 Meu pai era taxista, e muita gente conta que pegou t\u00e1xi com ele. Eu digo: \u201cEle mostrou aquela bola de Londres?\u201d. Com aquela bola com o p\u00e9, eu me transformo na filha do meu pai. L\u00e1 atr\u00e1s, eu era a filha da minha m\u00e3e. E o meu pai, que s\u00f3 sabia apertar o verde e o vermelho no celular, aprendeu a colocar aquele v\u00eddeo, e todo e qualquer passageiro ouviu que ele era o pai da Fabi e viu aquele lance em looping. Eu brincava com ele: \u201cVoc\u00ea contou a hist\u00f3ria toda (risos). Tem sen\u00e3o, hein\u201d. Eu gosto desse lugar, dessa mistura que o esporte tem com a menina, com a inf\u00e2ncia, o g\u00eanero, o sub\u00farbio, a quest\u00e3o social, de como o esporte me trouxe essa capacidade de me infiltrar, de achar um jeito para as coisas. Esse lance \u00e9 muito legal, emblem\u00e1tico, porque acontece numa Olimp\u00edada, reverbera, fala sobre uma jogada inusitada, mas no meu cora\u00e7\u00e3o ele tem um lugar que justifica tudo. Eu gosto muito de literatura, ela me salvou em Saquarema, nos momentos mais dif\u00edceis. Tem uma frase do Guimar\u00e3es Rosa, meu autor favorito, que traz toda essa beleza: \u201cA felicidade se encontra nas horinhas de descuido\u201d. \u00c9 muito bonito. As horas de descuido s\u00e3o quando ningu\u00e9m est\u00e1 vendo, \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea com voc\u00ea e suas d\u00favidas. A hora de descuido est\u00e1 na beleza de toda essa jornada, o descuido daquela menina que s\u00f3 queria driblar um amigo, tirar onda e se divertir.\n<\/p>\n<p>Fonte: ge<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00f4lei Feminino: Ex-l\u00edbero Fabi relembra elogio de Eurico quando jogava no Vasco Fabi lembra defesa com p\u00e9, aus\u00eancia da Rio 2016 e derrota mais dura \u201cVivi muito mais do que imaginei\u201d. Com essa frase, Fabiana Alvim de Oliveira, a Fabi, resume uma trajet\u00f3ria marcada pela sucess\u00e3o de acontecimentos improv\u00e1veis. 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